Considerável Contradição

Janeiro 29, 2009

Espelho

O que aconteceu com as minhas palavras? Quem ousa assim, tão incansavelmente, tirar-me meu modo mais fácil de expressão? Onde foi parar a inspiração? Aquela que me acalentava noites a fio, que me fazia levantar da cama na busca de um papel e uma caneta? De repente, eu me vi vazia. Mas não de sentimentos, nunca. Nem mesmo de pensamentos. Mas talvez... De reflexão. A arte de escrever envolve não só expor ao mundo o que sentimos e pensamos, mas também o raciocínio, a indagação, a reflexão.

O mundo, às vezes, gira tão rápido que nós nos perdemos dentro das nossas ações. Não digo obrigações porque não se vive vinte e quatro horas por dia trabalhando ou estudando. Sempre se acaba fazendo alguma outra coisa, em algum outro momento, como assistir a televisão, ler um livro, sair com os amigos, fazer as refeições. São tantas opções que quando agarramos tudo de uma vez, acabamos por nos esquecermos de nós mesmos. Esquecemos do exercício diário de olharmos para dentro, para entender o que acontece além da superfície.

E foi exatamente aí que as minhas palavras se perderam. Foi aí que descartei aquele tempo só meu como se fosse algo substituível, como se não me fosse importante. E foi assim que cai lá do alto. Me vi tão presente em tudo que acabei por tornar-me ausente. Eu quis ter tudo e acabei não tendo nada. Eu corri atrás do tempo e ele acabou voando.

A sorte é que sempre, quando eu estou quase alcançando o chão, o tal do destino mostra sua face. Me traz pessoas, sentimentos, ações, olhares, palavras. Coloca diante de mim a vida na sua mais pura essência, fazendo lágrimas escorrerem dos meus olhos. Ele me faz sentir com tamanha intensidade que eu quase consigo tocar os meus sentimentos.

E que depois do sossêgo, as minhas palavras voltem, mais verdadeiras do que nunca e com mais força do que a minha própria vontade de existir.


(Note-se pelo texto fraco que o sossego ainda não foi suficiente)
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Novembro 11, 2008

Tu ainda sentes?

Eu me perdi naquela poesia que um dia escrevi, mas nunca tive coragem para te entregar. Me perdi naquele sentimento, naquele momento, naquele contentamento. Revirei o nosso passado tocando fundo o meu peito, tentando entender como a vida pôde, um dia, ser tão bonita... Aonde ficaram as flores roubadas, as garrafas de vinho, os olhares brilhantes? O que aconteceu com aquela música que falava tudo sem dizer nada? Meu corpo inteiro grita aos quatro ventos tentando entender o que aconteceu, em qual estrada nossos caminhos se separaram... Nada mais faz sentido e o sentir se tornou somente dor... "Eu não tenho mais esperanças..." E agora nem eu sei mais.
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Outubro 28, 2008

Ama. Escreve.

As mãos tremiam como se sentissem alguma brisa gelada passar por entre os dedos. Os pés caminhavam lentos, tropegos, na tentativa de evitar qualquer passo em falso que pudesse derrubar todo aquele sentimento. O corpo flutuava, como se estivesse envolto por alguma força sobrenatural que lhe deixava leve como uma pluma. O coração batia rápido, sem intervalos, sem calma.

Toda aquela vontade tomava conta de mim, dos meus sentidos, dos meus pensamentos. Inspirava o ar como se absorvesse toda a energia que aquelas pessoas ali, sentadas, tinham a sua volta. Ah, o nervosismo. Já não conseguia mais controlá-lo. Ele me acompanhava e acalentava por todos os segundos, a cada mudança de olhar. "Sutileza, aquele olhar. Arde, incomoda. Mesmo sem te ver. E não sai da minha cabeça".

Essa minha ânsia em sentir me fez sentir até o que os outros - que compartilhavam comigo de toda aquela magia - sentiam. Os olhares cúmplices entregavam o medo, a vontade, a felicidade de realizar algo tão esperado. Somente nós, ali, entendíamos tudo o que já havia sido feito. Todos os dias em que havíamos mexido com as nossas profundezas para conseguir, enfim, chegar a tamanha sensibilidade.

Porque para que a verdade seja mostrada e sentida, é preciso que haja verdade no que é mostrado e sentido. E nós conseguimos alcançar esse mundo lá, naquele dia, naqueles minutos em que tivemos todos aqueles olhares voltados para nós. Chegamos ao mundo dos sonhos, da mentira verdadeira, das sensações. Um mundo aonde tudo é possível, realizável e nós - simples seres humanos - podemos nos tornar o quê, ou quem, quisermos.

Afinal, o palco é minha casa. Meu lar. Nele durmo Micaela e acordo Flávia. Nele procuro pela dor e encontro o amor. Nele me encontro, reencontro, transformo, crio e recrio. Nele eu "Amo sempre. Mesmo quando busco um olhar que sempre se esvai. Que sempre se perde na confusão dos próprios pensamentos."
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Junho 06, 2008

Para Sempre

O sangue circulava rápido dentro daquele corpo como se procurasse um fresta para escapar do circuito rotineiro. Queria jorrar, manchando toalhas, cortinas, lençois... Queria mostrar ao mundo que existia, queria chorar vermelho para que lhe levassem a sério.

Porque até mesmo seu corpo entendia que as lágrimas de água salgada não surtiam mais efeitos. Não que ela quissesse causar pena. Queria somente que alguém se importasse, que compartilhasse sua dor, que lhe ajudasse a gritar. As coisas haviam se tornado tão tristes que nem sua voz mais tinha coragem de dar o ar da graça. O silêncio havia tomado conta dela, de seu corpo e de todos os cômodos daquela casa que agora parecia tão misteriosa.

O que havia acontecido? O pior. A única coisa que pode destruir a vida de um homem. Ela havia perdido a esperança. Isso porque se dera conta que nada daquilo tudo que havia um dia planejado, tinha dado certo. Nada à sua volta parecia no lugar correto, nada estava como o esperado. Até mesmo os móveis nos mesmos lugares de sempre agora causavam desconforto.

Aqueles que um dia acreditou estarem sempre do seu lado, tinham sumido. Percebeu que as pessoas mudam, mas nem sempre para melhor. As qualidades dos amigos tinham sumido e dado lugar a invejas, interresses, egoísmo, maldade. Sentia-se sozinha e não acreditava mais que ser boa e desejar o bem levasse a algum lugar. Era tanto o que tinha desejado de coisas positivas para os que estavam ao seu redor, e era tanta a indiferença destes com ela que não lhe restavam forças para tentar outra vez.

O sol passou a ser tão melancólico quanto a chuva. Os dias da semana passaram a ser tão tristes quanto os domingos. Todas as músicas tornaram-se nostálgicas e todos os filmes tornaram-se vazios. O mundo parecia ter parado de girar e seu coração ameaçava explodir a qualquer minuto.

Ela precisava de uma solução. Precisava. Já não suportava mais viver com tanta dor, tanta mágoa. Sentou-se então na pequena escrivaninha e escreveu. Escreveu na tentativa de deixar no papel tudo o que lhe assombrava. Escreveu na tentativa de tirar todo aquele peso das suas costas. Mas de nada adiantou. O dia havia passado e tudo o que restava era uma folha com palavras, três maços de cigarro vazios e um buraco cavado dentro do mundo onde ela se encontrava.

Então, resolveu deixar que todo o seu sangue pedisse aos céus alívio. Ligou a banheira com água quente, despiu-se, cortou os dois pulsos e deitou-se deixando que o sangue se misturasse a água tão límpida. Não chorou, não pensou, não tentou. Somente esperou acordar em algum lugar onde sentisse cheia, com pessoas verdadeiras e boas a sua volta.

Quando os "amigos" souberam da notícia, foram direto a casa para entender o que havia acontecido. Na escrivaninha uma folha que um deles se atreveu a pegar. Ali, milhares de vezes estava escrita a mesma frase. A letra tremida agora era lida em voz alta: "Para sempre, sempre acaba."

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Maio 28, 2008

Casa Amarela

Chegaram à casa amarela depois da viajem mais engraçada que poderiam ter. As cinco espremidas no carro já tão conhecido, três ainda bêbadas e duas sem nem ao menos terem dormido. Depois das quatro horas regadas a risadas e enjôos – que se alternavam continuamente – a visão daquele que seria o seu lar pelos próximos dias tranqüilizava e acalentava.

Carro descarregado, quartos divididos, era preciso logo fazer algo. Do contrário a cama seria o destino de todas aquelas que sentiam seu corpo completamente mole. Almoço, por favor: massa ao molho branco com direito a uma pitada de shoyo. E cervejas, muitas delas. Duas novas integrantes juntaram-se ao grupo que agora somava sete almas dispostas a aproveitar cada segundo daquele feriado tão esperado. Por vezes tinham a companhia de um oitavo elemento, que ficava em uma casa próxima.

Os dias passaram todos na mesma rotina que de chata não tinha nada. Bebe, come, conversa, ri, dorme. Bebe, come, conversa, ri, dorme. Bebe, come, conversa, ri, dorme. Bebe, come, conversa, ri, dorme. E logo chegava a noite e apareciam novas brincadeiras: Qual é o filme, Se essa pessoa fosse um filme ela seria..., Bebe, tem que beber!, canastra, Perfil, strip poker – com direito ao banho de piscina mais frio na madrugada mais fria de todas – Eu nunca, Burro, fumaça, MUITA fumaça.

E quando a maioria ia dormir perto do amanhecer, aparecia a espertinha batendo panelas ou roubando cobertores para incomodar todas as outras. Troco dado: a pequena foi tirada da cama e jogada na piscina gelada pela manhã, o que restava era sempre muitas histórias engraçadas e gargalhadas homéricas. E pra beber: suco gammi, caipirinha, cerveja, vinho, tequila e alguns refrigerantes.

E depois de alguns dias de convivência, a casa não mais tinha sete meninas. Agora, eram sete personagens que viviam um Big Brother real que tinha até quarto do líder e paredão – no bom sentido, é claro. E talvez, Branca de Neve e os Sete Anões diga mais sobre elas do que se pode imaginar. A SONECA, quando acordada, pregava sustos que resultavam em copos de bebidas derramados. A FELIZ só se acalmava quando se trancava no quarto e assistia a alguns dos milhares de DVD’s levados. A ZANGADA tentava sempre aprontar algo e conseguia: mas depois acabava pagando micos gigantes. A DENGOSA buscava carinhos em todas, dormia de mão dada com algumas e sempre distribuía abraços. A ATCHIM mais tossia do que espirrava, mas nem por isso deixava de cozinhar para todas as outras. A MESTRE, também conhecida como irmãozão, deixava tudo encaminhado e sumia por horas, deixava todas preocupadas e, do nada, aparecia, sem dar maiores explicações. A DUNGA pouco falava, pouco fazia, mas estava sempre presente. E, é claro, a BRANCA DE NEVE, que de branca não tinha nada e aparecia ás vezes naquela casa para juntar-se a todas as outras. Só que nessa história não tinha nem bruxa e nem príncipe, muito menos maçã enfeitiçada. Somente limões e um tal estrupício que aparecia bem raramente.

No último dia, aquelas que quase não saíram de casa, resolveram se apertar no pequeno carro e passear. Pinguela, pausa para observar o mar, a lua, filosofar. Pinguela novamente e elas acabaram parando no Farol. Que vista linda, que paz, que felicidade. E, obviamente, acabaram parando na única barraquinha de Krep’s aberta para fazer um lanche. O cachorro de rua deitado no chão foi alvo do diálogo: “Esse cachorro é teu?” “Não, é de quem quiser.” “E como é o nome dele” “Passa-Fome”. Nem é preciso dizer as milhares de gargalhadas seguintes.

E assim passaram-se os cinco dias. Cheios de bom humor, boa vontade e principalmente muita amizade. Aquelas que achavam já se conhecer muito bem, descobriram peculiaridades de cada uma que enriqueceram ainda mais o sentimento de carinho entre elas. E, depois de tantos dias recheados de tanta diversão e tanto amor... “Isso foi uma CANTADA?” “Não, isso foi ESPONTANEIDADE.”

Postado por Mica_ela, às 15:10 hrs. Até então: 2 contradições

Maio 19, 2008

Já é Hora, Meu Bem.

Chega de se enganar, querida. Já é passada a hora de deixar de se jogar nesse mar de pessoas que nada têm a te oferecer a não ser um pouco de prazer. Chega de tentar enganar a solidão jogando sentimentos passageiros dentro de ti. Chega, meu bem.

É preciso aprender a ser sozinha, a viver sozinha, a acreditar sozinha. Tu não precisas de outros ao teu lado. Tu não precisas de forças alheias. A vida é agora, e do agora depende o teu futuro. Ergue a cabeça, menina. Confia em ti mesma e pára de depositar esperanças nos outros. Deposita esperanças em ti, no teu trabalho, no teu coração. Vive!

A única coisa que tu levaste de tantos relacionamentos corriqueiros foi decepção. Te olhas no espelho e enxergas, querida. Vê quem tu és e quem está dentro de ti, quem sempre esteve. Pensa com quem tu sonhas, quem tu espera encontrar quando tens algo de bom para contar.

No teu coração já está gravado um nome, meu bem. Basta que tu te abras para este sentimento. É amor, eu vejo nos teus olhos. E é recíproco e está ao teu alcance. É amor de escrever cartas, de rasgar conceitos, de chorar sangue. É amor de gritar ao mundo, de ouvir sinos, de encher taças. Não tenhas medo, não crie barreiras. Com calma e cautela tudo dará certo.

Chega de se enganar, querida. Já é passada a hora de se jogar na pessoa certa. Esta, que tu bem sabes quem é. Porque esta, somente esta, poderá te ensinar a ser sozinha mesmo estando acompanhada. E assim, serás feliz, menina.


"... because I don't shine if you don't shine..."

Postado por Mica_ela, às 10:07 hrs. Até então: 3 contradições

Maio 13, 2008

Acaso

Segunda-feira. Aquela melancolia comum de início de semana tomava conta de mim, deixando tudo sem cor. Não que eu estivesse triste: não estava. Mas não enxergava motivos para estar transpirando alegria. Um dia cansativo e ocupadíssimo esperava por mim, cheio de afazeres e tarefas não muito agradáveis. Deveria me dar prazer cada atividade do meu dia. Deveria se não fizesse a maioria delas por obrigação. Além do mais, sabia que não haveria nenhum momento nessas 24 horas em que eu poderia relaxar.

Sem escolha, comecei a maratona física e psicológica que a maioria das pessoas enfrenta, dia-a-dia, para sobreviver. Milhares de coisas para ajeitar durante a manhã, pausa rápida para o almoço: carne e salada – porque ainda é preciso cuidar da saúde. Seis quadras a pé até o trabalho, horas passaram e... Quando me dou por conta já é hora de voltar para a casa e enfrentar um coletivo cheio até a universidade.

Mais seis quadras para voltar para casa, troca de roupa rápida, fruta e... O celular toca: “Oi, sim, vou para a aula. Ah, claro, carona seria ótimo. Estou descendo.” E que Deus abençoe os pais dos meus amigos, afinal, sem eles meus amigos provavelmente não teriam carro. ^^ Chegamos à faculdade e nos sobrava ainda trinta minutos até o início da aula. Sentamos todos, com seus respectivos cafés e cigarros. Ah, que alegria. Aqueles trinta minutos de besteiras, risadas e conversa fiada me fizeram um bem imenso.

Ah, mas ainda é preciso ir para a aula. “Introdução a Comunicação Social” é a cadeira do dia. Interessante e bastante instigante, eu diria. Porém, nem tudo acontece como o esperado: o professor estava doente. Deu-nos um trabalho rápido para que fizéssemos pedindo, praticamente, para que acabássemos e fossemos embora. Trabalho feito e são ainda oito horas da noite. E agora?

Algumas pequenas ligações e, em menos de uma hora me enxerguei sentada no Subway – aquele fast-food de sanduíches, sabe? – rodeada das únicas pessoas que seriam capazes de mudar o meu humor: meus amigos. Conversas, risadas e besteiras acompanham toda a janta que ainda tem de sobremesa cookies. Planos para o final de semana... “Mas ainda é segunda-feira pessoal!!” “Ai, a gente só pensa em festa.” “Tu viu o clipe novo do JUSTICE? Ele é de cunho político e social, achei ótimo. Retrata muito bem a xenofobia que está acontecendo na França.” “Xenofobia? O que é xenofobia?” Risadas e, em meio a muitas dúvidas “Ah, procura ali no Google. Se não tem no Google não existe”. Dúvida tirada – xenofobia é preconceito relativo a tudo o que é diferente – alguns ainda não contentes com os cookies completam: “Vamos no Mc’Donalds comer sorvete?”. E todos levantamos sem objetivo algum de irmos para casa (mesmo já sendo tarde).

No Mc’Donalds mais risadas e planos para o final de semana. “Okey, a gente só pensa em festa” Muitas, muitas, muitas risadas. “Festa não, só pensamos nos momentos em que estaremos com nossos amigos, oras”. E então fui acalentada por uma sensação de gratidão imensa. Gratidão por estar ali, naquele momento, com tantos amigos a minha volta. Afinal, os momentos em que estamos com nossos amigos são os únicos que fazem realmente com que nos sintamos bem e que nos dão vontade de continuar a viver. Que graça tem realizar e alcançar objetivos profissionalmente se não temos aquele amigo querido do nosso lado para nos parabenizar? .

Saímos dali e fomos, cada um, para sua respectiva residência. Sozinha, me senti cansada e querendo muito a minha cama. Somente quando já estava deitada, percebi: agora - graças aquelas pessoas tão especias - eu estava transpirando alegria.

Postado por Mica_ela, às 18:25 hrs. Até então: 4 contradições

Março 11, 2008

Antes Último

Caminho longo esse do autoconhecimento. A cada dia que passa, me deparo com novos lados de mim mesma que antes não conhecia. Novas sensações, novos sentimentos, novas decepções. E partes de mim vão ficando para trás, sendo esquecidas, jogadas no abismo que é o passado. Passado... a única certeza que nos resta nessa vida. Triste não? A única coisa em que podemos nos agarrar é no que já foi, no que aconteceu, no que passou. Porque o que virá é um grande ponto de interrogação para todos que vivem o dia de hoje. O que nos resta é criar metas, planos, sonhos que nos motivem a continuar, a caminhar, a correr.

Mas como continuar se, revirando o que já existiu, percebemos que pouco conseguimos? Aonde foram parar todos aqueles objetivos de um vida que parecia correta? A realidade é bem mais canalha do que parece. É preciso se preocupar em "ser alguém", estudos, trabalho, carreira, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não existe vez para aquele que quer, simplesmente, ser. Não existe vez para aquele que teima em acreditar em um mundo mais feliz, mais sonhador, mais acolhedor. Não existe vez para a felicidade.

Porque ser feliz implica em fazer o que nos dá prazer. E o prazer é algo demasiadamente difícil de se conseguir. Talvez eu seja exigente demais - mais provavelmente insatisfeita - por querer tudo mais bonito, mais colorido, com mais espaço para pensar. Sim, pensar. Como encontrar tempo para pensar em um mundo que gira tão rápido e exige de nós cada dia mais? Todos cobram realizações que, na maioria das vezes, não são nossas vontades. E o pensar torna-se secundário, afinal, antes é preciso agir.

Antes é preciso agir? Mundo errado esse. Não nos dá tempo de descobrirmos o que fazer antes de fazê-lo. "Vamos, atrás vem gente!" Mas e por quê ser o primeiro? Não seria mais gratificante chegar a algum lugar tendo certeza das nossas convicções do que simplesmente chegar? É, parece que não. Vamos todos dar as mãos e caminhar juntos, com os pés no chão e o olhar focado em nós mesmos! Ser egoísta é a alma do negócio, gente!

Caminho longo esse do autoconhecimento. Até porque, não nos resta tempo para nos conhecermos. Quanto mais eu conheço do mundo, mais discordo dele. Quanto mais entendo a sociedade, mais a ignoro. Quanto mais me aproximo das pessoas, mais me decepciono. Quanto mais eu vivo, mais eu choro.


“Há muitas coisas que quero, de uma vez por todas, não saber. A sensatez estabelece limites mesmo ao conhecimento”. (Nietzsche)

Postado por Mica_ela, às 19:54 hrs. Até então: 5 contradições

Janeiro 04, 2008

Amar - Drummond

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Postado por Mica_ela, às 20:51 hrs. Até então: 7 contradições

Novembro 27, 2007

Ora Pois.

Ora pois, mundo injusto. É preciso abdicar de dias lindos na companhia dos que amo para buscar o que quero. Conseqüentemente, meus objetivos e sonhos tornam-se mais importantes do que os que sempre estiveram do meu lado. Será egoísmo? Difícil dizer. Até porque a minha vontade é conseguir conciliar meu preparo para o futuro com o amparo cedido a mim pelos meus amigos.

Mas já não me resta escolha. O dia tem somente vinte e quatro horas, e dessas - infelizmente - é preciso dormir oito. Sobram-me dezesseis horas que, entre refeições e obrigações, simplesmente desaparecem. Ah, com eu queria que meu dia tivesse trinta e seis horas... E que meu organismo não precisasse tanto assim descansar. Afinal, na minha inútil concepção de vida, o tempo que passo dormindo se iguala a tempo desperdiçado.

Todos esses pensamentos tornam-se ainda mais aterrorizantes quando levo em conta o fato de que posso falhar. Sim, falhar e ter então, realmente, abdicado de dias lindos pelo fracasso. E, sendo realista - no mundo em que vivemos hoje - as chances de fracassarmos são bem maiores do que as de vencermos. Isso porque praticamente todos os fatores conspiram contra nós: existem milhares de pessoas tão boas (ou melhores) do que nós buscando exatamente a mesma coisa que queremos; a nossa família exige que sejamos "alguém na vida" - e normalmente esse alguém é alguém que eles julgam perfeito - ; e sem contar a auto cobrança que, no meu caso, costuma ser altíssima.

Ora pois, mundo injusto. Não que eu queria ganhar tudo de graça. Mas as coisas poderiam ser um pouco mais fáceis, não? Eu poderia descobrir a cura da AIDS, ficar rica e ainda assim ajudar milhares de pessoas, não poderia? Pois sim, eu sei, até poderia. Mas para conseguir qualquer coisa nessa vida – seja uma vaga em alguma universidade ou descobrir o quinto estado físico da matéria (porque o quarto já existe e, por incrível que pareça, é o plasma) – é preciso esforço, dedicação e, infelizmente, abdicação.

Afinal, deve ser mais gostoso mesmo conquistar o que tanto almejamos depois de muito esforço. E se vier o fracasso... Bom, melhor não pensar nisso.

Postado por Mica_ela, às 19:59 hrs. Até então: 5 contradições